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O reconhecimento de serpentes
peçonhentas deveria fazer parte
do currículo escolar, principalmente
nas áreas rurais do Brasil.
Nós teremos que recapitular
alguns pontos já colocados mas,
antes, tentaremos explicar o
porquê da importância do assunto.
O problema central é o tratamento
das vítimas de mordidas de cobra.
Essencialmente, isto é feito
com a soroterapia que deverá
ser a mais específica possível.
Vejamos isto:
O antídoto contra o veneno
é preparado a partir de
soro de cavalos que são
imunizados contra a peçonha
de cobras. Doses crescentes
de veneno são injetadas
durante um período para
que o animal fabrique anticorpos
contra o mesmo. Depois,
retira-se o sangue do cavalo
e prepara-se o soro anti-ofídico
para uso em pacientes mordidos
por ofídios.
É possível injetar mais
de um tipo de veneno, por
exemplo de jararaca e cascavel
no cavalo, a fim de que
faça anticorpos contra ambos
os serpentes. Isto é feito
e existem soros bivalentes:
antibotrópico e anticrotálico
(contra jararaca e cascavel),
antilaquético e antibotrópico
(contra surucucu e jararaca),
etc...
Entretanto, a eficiência
da terapêutica é muito maior
com um soro específico do
que com soros multivalentes.
Assim, se o acidente for
com cascavel é muito melhor
injetar no paciente soro
especificamente anticrotálico,
do que um soro polivalente.
( Esquema
da produção de soro)
Esperamos que tenha ficado claro
que, se o cidadão acidentado
informar corretamente ao médico
o tipo de cobra que o mordeu,
ele receberá uma terapêutica
muito mais eficaz. Em caso de
dúvidas, lhe será administrado
soro polivalente de menor eficiência
para combater o veneno ofídico.
Talvez,
neste momento, você esteja formulando
duas perguntas:
a) "O médico não é capaz de
diagnosticar pelos aspectos
clínicos o tipo de cobra que
mordeu a pessoa ?"
b) "Será que o hospital não
tem algum teste para detectar
o tipo de veneno ?"
Ambas são excelentes questões
e vamos respondê-las.
a) A prática clínica com vítimas
de ofídios peçonhentos leva
ao reconhecimento correto do
serpente responsável pelo acidente.
Portanto, a resposta é de que
o médico é capaz de diagnosticar
pelos aspectos clínicos o tipo
de cobra que mordeu a pessoa.
Mas, e é um mas grande, são
poucos os profissionais que
têm a prática necessária para
fazer este diagnóstico. Lembre-se
que no início dissemos que mensalmente
existem 1.500 a 2.000 casos
de ofidismo ? Isto no Brasil
todo. Quantos serão os médicos
que têm experiência suficiente
para reconhecer os quadros clínicos
específicos de cada gênero de
serpente ? Certamente poucos.
Só aqueles que trabalham nos
grandes centros de referência
para tratar estes acidentados.
Por exemplo, Hospital "Vital
Brasil", Hospital das Clínicas
de Botucatu, Hospital das Clínicas
de Ribeirão Preto e alguns outros
centros que concentram os casos
de ofidismo no país.
b) Quanto a exames laboratoriais
para diagnosticar tipos de venenos
de cobra, eles existem e são
capazes de identificar o veneno
e até a quantidade que foi injetada
pelo animal. Porém, há dois
obstáculos a vencer: primeiro,
a lentidão desses testes – os
pacientes não podem aguardar
horas – segundo, a dificuldade
técnica e o custo, que limitam
sua utilização aos centros de
excelência. Os acidentes ofídicos
ocorrem, na mais das vezes,
longe dos hospitais bem equipados
e, quando os pacientes chegam
aos postos de atendimento, é
preciso agir com rapidez e com
os meios disponíveis: soros
e outros remédios.
Certamente, até que não haja
um meio de diagnosticar o tipo
de veneno nos centros médicos
e postos de saúde em todo o
país, é importante que a vítima
seja capaz de informar a espécie
(pelo menos o gênero) de cobra
que a mordeu: jararaca, cascavel,
surucucu ou coral. Levar o ofídio
– vivo ou morto – até o centro
médico é uma ótima idéia, desde
que a captura ou matança do
animal não resulte em novas
mordidas.
Examine essa tabela de reconhecimento
de serpentes peçonhentas. Ela
mostra os pormenores: tipo de
cabeça, fosseta loreal, dentição,
aspecto das escamas e cauda.
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Venenosas |
Não Venenosas |

Cabeça chata, triangular,
bem destacada. |

Cabeça estreita,
alongada, mal destacada. |

Olhos pequenos,
com pupila em fenda
vertical e fosseta
loreal entre os
olhos e as narinas
(quadradinho preto). |

Olhos grandes, com
pupila circular,
fosseta lacrimal
ausente. |

Escamas do corpo
alongadas, pontudas,
imbricadas, com
carena mediana,
dando ao tato uma
impressão de aspereza. |

Escamas achatadas,
sem carena, dando
ao tato uma impressão
de liso, escorregadio. |

Cabeça com escamas
pequenas semelhantes
às do corpo. |

Cabeça com placas
em vez de escamas. |

Cauda curta, afinada
bruscamente. |

Cauda longa, afinada
gradualmente. |

Quando perseguida,
toma atitude de
ataque, enrodilhando-se. |

Quando perseguida,
foge. |
Tudo poderá ser facilmente verificado,
se tivermos um animal morto
ou imobilizado que poderá ser
examinado com calma e minuciosamente.
Na prática, quando ocorrem os
acidentes, a situação é bem
outra, no entanto
há
algumas observações que geralmente
dá para fazer.
1. Verifique a
coloração
do corpo do animal
que lhe mordeu.
Os característicos
anéis coloridos das
cobras corais são gritantes.
Você poderá dizer ao médico
se foi ou não uma cobra coral.
A confusão com as serpentes
corais falsas é irrelevante,
pois não trará nenhum perigo
à sua saúde.
2. Se não for coral, veja bem
a cauda da cobra se
tem ou
não o
chocalho
típico da cascavel.
O chocalho também se ouve: antes
de dar o bote, a cascavel balança
vigorosamente a cauda para lhe
espantar com o ruído. Repetimos
que o chocalho é muito óbvio
e fácil de reconhecer. Já as
escamas eriçadas da cauda da
surucucu é muito mais difícil
de ver.

Chocalho |
As serpentes crescem rapidamente
após o nascimento e alcançam
a maturidade após 2 anos (as
grandes cobras, jibóia e sucuri,
após 4 ou 5). Durante suas vidas
os ofídios mudam a pele regularmente
e é comum encontrar-se cascas
de serpentes abandonadas no
campo. A cascavel, por razões
não bem entendidas, em vez de
sair completamente de sua pele
antiga, mantém parte dela enrolada
na cauda em forma de um anel
cinzento grosseiro. Com o correr
dos anos, estes pedaços de epiderme
ressecados formam os guizos
que, quando o animal vibra a
cauda, balançam e causam o ruído
característico. A finalidade
é de advertir a sua presença
e espantar os animais de grande
porte que lhe poderiam fazer
mal. É uma ótima chance de evitar
o confronto. |
3. Tome nota da
hora
em que você foi picado. É uma
informação preciosa ao posto
de socorro. Por exemplo, poderá
servir ao médico para diferenciar
a cobra coral verdadeira da
falsa: se após pouco tempo você
não tem nenhum dos sintomas
clínicos de envenenamento ofídico,
ficará algum tempo em observação
sem tomar soro. O tempo decorrido
entre o acidente e a intensidade
dos sintomas também é fundamental
para avaliar a gravidade do
caso e guiará a terapêutica
a ser aplicada.
4. Se não tiver nenhuma observação
sobre a cobra, pelo menos informe
os
aspectos do local
em que aconteceu o acidente:
floresta, areia, rochas expostas,
etc...
De tudo que foi dito, é simples
deduzir que
a maior
dúvida é sempre entre a jararaca
e a surucucu.
Para saber "o que é que você
deverá fazer se for mordido
por cobra venenosa" veja o próximo
artigo.
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