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O fato bem
conhecido de que os exercícios com pesos podem
induzir grande aumento de pressão arterial, e a
imagem de um levantador de peso realizando uma
prova com carga máxima, talvez expliquem o
conceito que muitos profissionais de saúde ainda
têm no sentido de que o treinamento com pesos
seria uma atividade de alto risco
cardiovascular. No entanto, a baixa incidência
de acidentes cardiovasculares no treinamento com
pesos, e o melhor conhecimento da fisiologia dos
exercícios resistidos vieram trazer mais
tranqüilidade para os profissionais atualizados.
Para compreender o que ocorre com os exercícios
resistidos, inicialmente é conveniente relembrar
os principais mecanismos de acidentes
cardiovasculares na atividade física: o aumento
da pressão arterial e o aumento da freqüência
cardíaca.
O aumento da
pressão arterial pode levar ao rompimento de
artérias fragilizadas por aneurismas congênitos
ou adquiridos, aterosclerose, hipertensão
arterial ou diabetes. O aumento da freqüência
cardíaca caracteriza um aumento de demanda de
oxigênio pelo miocárdio, que pode não ser
suprida adequadamente por artérias coronárias
parcialmente obstruídas. A isquemia resultante
dessa desproporção entre oferta e demanda de
oxigênio pode levar à angina, infarto, arritmias
graves e parada cardíaca. Para avaliar o risco
cardiovascular dos esforços físicos, seja por
aumento de pressão arterial ou de freqüência
cardíaca, costuma-se utilizar o chamado
Duplo-Produto, parâmetro numérico dado pela
multiplicação da freqüência cardíaca pela
pressão arterial sistólica. O resultado pode ser
dividido por 1.000 para que se tenha um número
menor.
Nos exercícios
contínuos, a freqüência cardíaca e a pressão
arterial aumentam paralelamente com a
intensidade do esforço, justificando a indicação
dessa forma de atividade física em intensidade
baixa para pessoas debilitadas por sedentarismo
ou doenças. Como os exercícios contínuos em
intensidades baixas ocorrem em metabolismo
aeróbio, criou-se a hábito de afirmar que os
exercícios aeróbios são os mais seguros.
Todavia, esta afirmação não vale para os
exercícios interrompidos como os exercícios com
pesos. Neste tipo de atividade, o caráter
localizado e resistido da contração muscular
determina intensidades relativamente altas de
esforço com metabolismo energético predominante
anaeróbio, mas com demanda cardiovascular
geralmente discreta. A pressão arterial sobe
sempre um pouco mais do que nos exercícios
contínuos, mas geralmente dentro dos limites de
tolerância. Apenas com a ocorrência de cargas
máximas que levem à apnéia e isometria, ocorrem
grandes aumentos de pressão arterial.
Normalmente os exercícios com pesos para não
atletas são realizados de maneira isotônica, sem
apnéia importante e interrompidos antes da
isometria. Por outro lado, as repetições baixas
que normalmente são utilizadas no treinamento
com pesos produzem discreto aumento de
freqüência cardíaca. Além disto, os intervalos
para descanso muscular entre as séries fazem com
que a freqüência cardíaca volte quase aos níveis
de repouso antes de novo esforço.
Em resumo, os
exercícios com pesos para não atletas produzem
aumento um pouco maior da pressão arterial em
relação aos exercícios contínuos, mas um aumento
de freqüência cardíaca muito menor. Assim sendo,
o Duplo-Produto dos exercícios com pesos costuma
ser baixo, já tendo sido demonstrado que
caminhar rápido em plano levemente inclinado
produz maior sobrecarga cardiovascular do que o
treinamento com pesos utilizando 80 % de carga
máxima. Coronarianos que não tiveram qualquer
sinal de isquemia em treinamento com pesos com
80 % de carga máxima apresentaram sinais ou
sintomas em teste ergométrico sub-máximo em
esteira. A explicação é que a freqüência
cardíaca mais baixa no treinamento com pesos
levou à menor demanda de oxigênio, e que a
pressão arterial diastólica ligeiramente mais
alta levou à uma maior oferta de sangue para o
miocárdio. Essas reações cardiovasculares
permitem que os exercícios com pesos sejam
utilizados por pacientes com disfunção
coronariana, disfunção contrátil ou distúrbios
do ritmo cardíaco, evidentemente quando bem
avaliados e acompanhados.
Um erro freqüente
é imaginar que pesos leves são mais seguros. Com
pesos mais leves se fazem mais repetições, o que
aumenta a freqüência cardíaca e a pressão
arterial, e além disto, se ao final da série
ocorrer isometria e apnéia, a pressão arterial
aumentará mais do aumentaria com mais peso e
menos repetições. Em todo o mundo, a maioria dos
pesquisadores que estudam os efeitos dos
exercícios com pesos em pessoas idosas estão
utilizando cerca de 80 % de carga máxima, para
repetições entre seis e oito, evidentemente sem
isometria e sem apnéia. Apenas para referência,
útil para pessoas que não têm familiaridade com
o treinamento com pesos, este nível de carga no
exercício de "leg press" pode significar cerca
de 50 quilos para pessoas idosas.
Numerosos
trabalhos têm documentado a segurança
músculo-esquelética e cardiovascular do
treinamento com pesos não apenas para pessoas
sadias mas também para pessoas debilitadas e que
apresentam doenças. Esses conhecimentos
associados aos importantes efeitos dos
exercícios com pesos no aumento de massa óssea,
aumento da massa muscular e aumento da
mobilidade articular, têm levado à utilização
cada vez maior desses exercícios em programas de
reabilitação geriátrica.
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