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Noticias de que
alguns exercícios da musculação foram
recentemente proibidos têm circulado no meio das
academias. Tal é o caso do agachamento completo,
do desenvolvimento sentado, da remada curvada,
do puxador por trás do pescoço, entre outros. A
primeira pergunta que cabe é "Quem proibiu?",
apenas para deixar claro que o verbo em questão
não se aplica à situação. Certamente os
profissionais que estão proibindo os alunos de
realizarem os referidos exercícios estão
exagerando as condutas. Na realidade o que tem
ocorrido é que têm sido publicadas em revistas
científicas trabalhos que identificaram
sobrecargas acentuadas em componentes do sistema
músculo-esquelético em alguns exercícios. Na
discussão desses trabalhos, os autores comentam
todas as possíveis implicações dos seus
resultados, e freqüentemente a ocorrência de
lesões é citada como uma possibilidade. Esse é
um procedimento correto e habitual em trabalhos
científicos. Os problemas começam quando
profissionais menos afeitos ao rigor dos métodos
científicos lêem os trabalhos e publicam suas
conclusões em outras revistas com grande
penetração nos meios técnicos. Freqüentemente a
interpretação é que o trabalho provou que o
exercício analisado provoca lesões, e a
divulgação desses conceitos leva às proibições
nas academias.
Na realidade, a
única conclusão possível nesses casos, é que o
exercício estudado apresenta sobrecargas em
estruturas anatômicas. Uma sobrecarga não
significa algo indesejável, mas apenas que
determinadas funções dos órgãos estão sendo
solicitadas acima dos níveis habituais. Diante
da ocorrência de sobrecargas duas situações
podem ocorrer: aprimoramento da função
sobrecarregada ou falência da estrutura ou
órgão. No caso das sobrecargas agudas, como é o
caso dos exercícios físicos, um aumento de
função muito intenso pode produzir uma lesão
também aguda, mais ou menos grave, como é o caso
de uma hérnia de disco ao realizar um movimento
inadequado. Sobrecargas agudas excessivas mas
não suficientes para produzir uma lesão aguda,
quando repetitivas, poderão levar à lesões
crônicas, tal como as tendinites do trabalho e
do esporte mal orientados. Sobrecargas menos
intensas levarão ao fortalecimento da estrutura
ou órgão. A aplicação de sobrecargas não
excessivas é a base do treinamento físico.
Sobrecargas crônicas, geralmente não muito
intensas e produzidas por doenças, quase que
invariavelmente levam ao comprometimento
anatômico e funcional dos órgãos. Nesses casos
as sobrecargas são constantes, sem períodos de
alívio, e dessa maneira não permitem as
adaptações de fortalecimento que sempre ocorrem
em repouso, na ausência de aumento de função.
Exemplos dessas situações são as artroses por
excesso de peso corporal ou por desalinhamentos
articulares, a insuficiência cardíaca por
hipertensão arterial, o enfisema pulmonar por
síndromes pulmonares obstrutivas, entre outros.
No caso dos
exercícios como saber se uma sobrecarga é
excessiva ou não? Cabem algumas considerações.
Estudos em laboratórios com estruturas
anatômicas isoladas podem identificar limites de
tolerância dos tecidos envolvidos, mas não
conseguem predizer se os resultados das
interações de forças in vivo poderão chegar à
esses limites. Outro aspecto é que as
sobrecargas biomecânicas poderão variar muito
entre as pessoas, devido a diferenças nas
alavancas músculo-esqueléticas. Assim sendo,
sobrecargas excessivas para uma pessoa poderão
ser estímulos de fortalecimento para outra. Do
ponto de vista científico, a possibilidade de
ocorrência de lesões somente será confirmada
quando as lesões forem identificadas. Estudos
experimentais com pessoas realizando exercícios
suspeitos e acompanhadas para detectar a
ocorrência de lesões são inviáveis do ponto de
vista ético. Os estudos que caberiam nesse caso
são os de levantamento de casos ou
observacionais, quando pessoas que já realizam
os exercícios suspeitos são acompanhadas ao
longo do tempo ou avaliadas retrospectivamente.
Em outras palavras, não é necessário acompanhar
as pessoas durante anos para verificar se
ocorrem lesões; basta avaliar pessoas que já
utilizam os exercícios suspeitos há muito tempo.
Na ausência de estudos como esses a ocorrência
de lesões é apenas uma possibilidade teórica.
Felizmente os
profissionais envolvidos com treinamento físico
não precisam esperar por trabalhos científicos
demorados para tomar condutas práticas em
relação aos exercícios: basta que utilizem o
conhecimento técnico. No caso dos exercícios com
pesos, grandes cargas nunca são utilizadas em
exercícios que a pessoa nunca realizou.
Invariavelmente os exercícios são experimentados
com pouca carga, em poucas séries com poucas
repetições. O praticante deve ser orientado para
informar ao professor ou técnico sobre
desconforto articular que ocorra na progressão
do treinamento. Faz parte do conhecimento
técnico que exercícios progressivos inadequados
para uma dada pessoa, antes de produzirem
lesões, darão origem ao desconforto local.
Provavelmente isto se deve ao estímulo dos
proprioceptores peri-articulares por sobrecargas
excessivas. Em outras palavras, a natureza
colocou em nosso organismo um sistema refinado
para detecção de sobrecargas excessivas, que
informa ao sistema nervoso central suas
avaliações na forma de desconforto. A ocorrência
de desconforto exige intervenção no sentido de
modificar ou substituir o exercício causal.
Assim sendo, alguns exercícios são identificados
como adequados para algumas pessoas e
inadequados para outras. Além desse aspecto, o
conhecimento técnico já identificou os
exercícios ou técnicas de execução de exercícios
que mais freqüentemente produzem lesões.
Evidentemente isto ocorreu às custas de pessoas
que se lesionaram, mas cujo infortúnio muito
contribuiu para o conhecimento técnico atual.
Tais exercícios ou procedimentos foram excluídos
do arsenal da musculação muito antes que
qualquer trabalho científico levantasse
suspeitas sobre eles.
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