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Estamos vivendo
hoje, com relação às drogas anabolizantes, uma
situação semelhante à que ocorreu com o
tabagismo no início do século: a utilização por
grande número de pessoas aparentando boa saúde
tende a estimular a noção de segurança. O cinema
pode nos dar uma idéia de como era difundido o
hábito de fumar. Filmes da época quase que
invariavelmente mostravam os artistas fumando.
Mais de cinqüenta anos foram necessários para
que as estatísticas da incidência de doenças
pudessem ser feitas, e graças à esses dados,
hoje está bem estabelecido que o fumo produz
diversos males à saúde. Mesmo assim, muitos
continuam fumando. Os fumantes doentes estão nos
hospitais, em casa, ou já não estão entre nós,
enquanto que as pessoas que fumam em público
aparentam boa saúde. Geralmente muitos anos de
tabagismo são necessários para que ocorram
doenças graves, e mesmo assim não ocorrerão em
todas as pessoas. E antes de adoecer, as pessoas
terão fumado em público durante muitos anos com
aparente boa saúde.
No caso das
drogas anabolizantes, geralmente esteróides
androgênicos derivados da testosterona, as
estatísticas ainda são precárias devido a que a
sua utilização por parcelas consideráveis da
população é relativamente recente. Os estudos
experimentais, nos quais drogas são
administradas pelos pesquisadores e seus efeitos
analisados, sempre com conclusões mais
confiáveis, são dificultados no caso de
anabolizantes hormonais em pessoas saudáveis por
razões éticas. Alguns trabalhos experimentais
são encontrados na literatura, envolvendo a
utilização de esteróides anabolizantes para o
tratamento de doenças como anemias, alguns tipos
de câncer e reposição hormonal. Também existem
trabalhos experimentais estudando os efeitos de
derivados da testosterona com o objetivo de
contracepção masculina. O tipo de trabalho
científico mais freqüentemente encontrado sobre
o tema são os relatos de casos clínicos, onde o
uso de anabolizantes esteróides é associado à
ocorrência de doenças mais ou menos graves.
Esses trabalhos não permitem concluir que a
relação entre as drogas e as doenças sejam do
tipo "causa e efeito" mas no mínimo, existe uma
ação desencadeante de alterações patológicas em
pessoas predispostas. Estudos observacionais,
transversais e longitudinais, em grupos de
usuários de drogas anabolizantes têm contribuído
para a identificação das intercorrências
patológicas mais freqüentes.
Em recente
pesquisa, um questionário foi distribuído para
1.667 pessoas em academias do Reino Unido, e
publicado no International Journal of Sports
Medicine, 18:557-62, 1992. Entre os homens
interrogados 9,1 % usavam drogas anabolizantes
contra 2,3% entre as mulheres. Drogas injetáveis
e orais foram utilizadas, em doses até 34 vezes
as doses terapêuticas. Entre os usuários, apenas
28% eram atletas de competição. O sistema de
ciclos interrompidos foi utilizado por 88% dos
usuários, e 77% relataram ter percebido efeitos
colaterais: atrofia do testículo em 56% dos
casos, ginecomastia em 52%, dificuldade para
dormir em 37%, hipertensão arterial em 36%,
lesões tendinosas em 26%, sangramento nasal em
22% e resfriados freqüentes em 16%. Entre as
mulheres foram relatados casos de
irregularidades menstruais, hipertrofia do
clitóris, diminuição das mamas, engrossamento da
voz, acne, queda de cabelo e hirsutismo. Por
ocasião da interrupção dos ciclos foram
freqüentes os relatos de tonturas, fraqueza,
perda da libido e dores articulares.
Considerando a
totalidade dos trabalhos publicados até o
presente, podemos concluir que o uso abusivo de
esteróides anabolizantes apresenta alta
incidência de efeitos indesejáveis a curto
prazo, embora nem sempre graves. A longo prazo,
doenças graves poderão ser desencadeadas
dependendo das drogas empregadas, do tempo de
utilização, das doses e da predisposição
individual.
As drogas de uso
oral estão mais associadas com os tumores do
fígado, com a icterícia obstrutiva, com a
formação de cistos hepáticos hemorrágicos, com o
desencadeamento da diabetes e com as doenças
cardíacas coronarianas. Os mecanismos de doença
são o maior metabolismo hepático das drogas,
aumento da resistência celular à insulina e
depressão do HDL-colesterol. As drogas
injetáveis produzem mais ginecomastia e maior
tendência para a trombose, cerebral e
periférica, devido à maior formação metabólica
de hormônios femininos estrogênicos. O uso de
antiestrogênicos em associação com as drogas
injetáveis, prática comum entre atletas, não é
aconselhável por diminuir o efeito anabolizante
e produzir os mesmos efeitos tóxicos dos
esteróides orais. O fechamento prematuro das
linhas de crescimento nas epífises ósseas dos
adolescentes, a hipertensão arterial e o câncer
da próstata têm sido relatados em associação
tanto com os esteróides orais quanto com os
injetáveis. Todos os esteróides anabolizantes
parecem ser igualmente úteis para estimular a
massa muscular, a força e a redução de gordura,
embora com dosagens diferentes.
Durante o uso dos
esteróides anabolizantes, geralmente em períodos
de seis à oito semanas, ocorre acentuada
diminuição da fertilidade, aumento da libido e
diminuição da testosterona endógena. Admite-se
que a depressão e a letargia frequentemente
relatadas ao interromper a droga possam estar
relacionadas com baixos níveis de testosterona
endógena. A impotência sexual parece ser mais
consequência de fenômenos depressivos, às vezes
intensos, e que podem levar ao suicídio. Muitos
usuários ficam dependentes dos esteróides por
conta do mal-estar produzido pela supressão da
droga. Frequentemente é necessária a intervenção
psiquiátrica. O retorno aos níveis normais de
produções hormonal costuma ocorrer em cerca de
três meses após o fim do ciclo, mas existem
relatos de hipogonadismo permanente consequente
à muitos anos de utilização contínua de
esteróides anabolizantes. A fertilidade normal
pode tardar de seis meses à um ano, justificando
a proposta de utilização dos esteróides
androgênicos como anticoncepcionais masculinos.
A utilização de gonadotrofina coriônica ao final
de cada ciclo, também prática comum entre
atletas para estimular os testículos parecer ser
normalmente desnecessária e aumenta a incidência
de ginecomastia. Quando constatado o
hipogonadismo, o tratamento com gonadotrofina
necessita ser bastante prolongado.
As mortes que têm
sido associadas aos esteróides anabolizantes
parecem ser decorrentes do uso contínuo
prolongado ou de doses abusivas. As causas dos
óbitos foram infartos cardíacos, trombose
cerebral, hemorragia hepática, sangramento de
varizes do esôfago, miocardiopatia, metástases
de tumores da próstata e do fígado, infecções
por depressão da imunidade ou contaminação por
medicamentos falsificados (AIDS e hepatite).
Drogas
alternativas como o GH (hormônio do crescimento)
também não são seguras. A incidência do câncer
de próstata aumenta de 3 a 4 vezes e ocorre com
frequência o hipotireoidismo, com depressão do
metabolismo e tendência para a obesidade,
cardiopatia, impotência sexual, ginecomastia,
sindrome do túnel do carpo, entre outros
problemas. Além disto, o custo mensal de
utilização de GH pode chegar aos US$ 4.000,00.
Uma importante
questão é saber se existe maneira segura para a
utilização de esteróides androgênicos. Admite-se
que doses menores e utilização interrompida
tenham menor probabilidade de produzir efeitos
indesejáveis, mas a quantificação dos riscos
individuais ainda não é possível. Duas situações
são indesejáveis no presente momento: exagerar o
risco dos anabolizantes hormonais e ignorar a
possibilidade de ocorrência de doenças graves.
Com relação aos
riscos, pode-se imaginar que na melhor das
hipóteses será possível chegar à esquemas de
administração com segurança semelhante à dos
anticoncepcionais femininos. A utilização de
esteróides estrogênicos por mulheres de todo o
mundo com finalidade de contracepção tem efeitos
colaterais muito semelhantes aos dos
anabolizantes hormonais, mas ocupam muito menos
espaço na mídia. A nossa sociedade parece
considerar a contracepção uma razão justificável
para que as mulheres corram riscos para a saúde,
mesmo com as estatísticas demonstrando a
ocorrência de doenças graves. Por outro lado,
atletas e treinadores despreparados costumam
desconsiderar os riscos dos esteróides, baseados
na aparente boa saúde de alguns campeões. Essa
atitude é indefensável e coloca muitos jovens em
situação crítica para a saúde.
No caso da
musculação, a noção de que aumentos
significativos de massa muscular são impossíveis
sem o uso de drogas contribui para agravar a
situação. O que ocorre é que todas as pessoas
apresentam progressos com treinamento bem
orientado e alimentação adequada, mas alguns têm
potencial para massa muscular muito maior do que
outros. Apesar de que as drogas anabolizantes
podem sem dúvida favorecer o crescimento dos
músculos, elas não são formadoras de campeões.
Olhar para um campeão de musculação e atribuir
todo o seu sucesso à drogas é uma injustiça. Na
realidade trata-se do resultado de treinamento
dedicado e alimentação cuidadosa atuando em base
genética favorável. Os efeitos das drogas são
aditivos à esses fatores básicos. Nas academias
é comum encontrarmos pessoas sem volume e
qualidade musculares apesar do uso de
anabolizantes hormonais e por outro lado,
pessoas muito grandes e fortes que jamais
utilizaram drogas. Estes são poucos, como também
são poucos os grandes campeões, porque o
potencial genético para grande massa muscular é
raro.
A situação atual
pode ser resumida da seguinte maneira: quem está
utilizando drogas está correndo riscos de saúde
ainda não bem conhecidos. Esquemas racionais de
utilização são mais seguros mas não totalmente
isentos de riscos. Assim sendo, a decisão deverá
ser sempre uma decisão pessoal. A pessoa deve
ponderar os riscos e benefícios e decidir
racionalmente. Aos profissionais compete
informar e não influenciar na decisão.
No caso de
atletas de competição, o uso de drogas
transcende a questão da saúde individual. As
drogas que favorecem o desempenho nas diversas
modalidades são consideradas eticamente
indesejáveis e portanto ilícitas,
independentemente de produzirem danos para a
saúde. Aos dirigentes esportivos cabe coibir o
seu uso enquanto prevalecerem as regras atuais,
cuja validade moral poderá ou não mudar com o
passar do tempo.
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